terça-feira, 10 de novembro de 2009

O que acha um sportinguista de tudo isto

Enola Gay. O nome dado ao bombardeiro B-29 que levava a bomba atómica. Seguiu-se a chacina em Hiroshima, com repercussões que durante décadas se fizeram sentir, no corpo dos que ficaram e dos que ali nasceram.

A referência, embora desapropriada, serve para nos alertar para o momento em que vivemos. Sabíamos isso antes de Paulo Bento chegar ao Sporting. Vivemos essa situação com o treinador. A saída dele limitou-se a relembrar-nos: estamos sem dinheiro. As contas são simples. O porto compra caro mas vende mais caro ainda. E tem Liga dos Campeões para ajudar à festa. Se há dívidas, se há histórias de dinheiro que não se percebem, a verdade é que é assim que vivem. Com o benfica, a situação tem outras características. Anos a jogar e a comprar mal levaram a dívidas descomunais. A falência técnica é semelhante à nossa, mas só no nome. O benfica há muito que não faz grandes vendas. E nas últimas três épocas contrataram recorrendo a contratos de publicidade para os próximos anos e a crédito bancário. Situação: o futebol apresentado este ano não é só diferente ao que se viu nas últimas épocas. É também a única forma de sobrevivência. É possível que venham a vender já este ano alguns nomes (Ramires deverá ser dos primeiros a saltar para o estrangeiro). Mas é de estádio cheio, e na urgência de voltar à Liga dos Campeões, que tudo se joga. Claro que Luis Filipe Vieira se está a cagar para pouco mais do que o seu futuro. Mas neste momento o ponto é sem retorno. Têm de ganhar.

E assim chegamos a Alvaladade.

Claro que qualquer pessoa com um mínimo de jogos de futebol na retina tem consciência de que PB fez muito com um plantel que teve, sempre, fragilidades. O Sporting não tem dinheiro e tem vivido na última década (ou melhor, depois da compra megalómana do Jardel, em que o dinheiro nos garantiu um campeonato) sempre com as mãos nos bolsos, a remexer à procura de trocos. A nossa gestão é feita por gestores. Gestores, sim, que nas suas empresas se habituaram a fazer contas que permitam que palavras como insolvência e falência não entrem no léxico do local onde trabalham. Trouxeram isso para Alvalade, o que é de louvar.

Mas o futebol tem vivido e continua a viver um pouco como os Maddoffs deste mundo. Com dinheiro que não tem e que só lá está no papel, enquanto conceito ou mera hipótese. Na verdade esse dinheiro não existe. Este ano, o ano "da crise", vimos Ronaldo mudar-se a troco da transferência mais cara da história do futebol. Novamente, o Real madrid deve dinheiro que é uma coisa estúpida. Mas havia crédito para pagar o que parecia impossível. Nas ligas norte americanas (NHL, NBA, etc.) há habitualmente um limite mínimo e máximo nos orçamentos. Equipa que não garanta pelo menos alguns milhões, não entra. Equipa que viva desafogada, não poderá passar de um determinado valor. Isto garante alguma equidade e reforça a competitividade. Pessoalmente, sou apreciador desse modelo. Mas aplicado ao nosso futebol ditaria rapidamente a morte de muitas equipas do nosso futebol profissional. Já para não falar de que se há desporto que desaprova mudanças, é mesmo o futebol e a sua board de velhadas caquéticos.

A verdade é que a própria justiça desportiva é deturpada quando temos uma equipa como o estrela da amadora, que ficou dias consecutivos sem treinar, ou como o vitória de setúbal, em que por muito profissionais que os jogadores fossem, meses de ordenado em atraso de jogadores que não ganham assim tanto, vão com certeza afectar o atleta. Mas o futebol é assim. Não há este princípio de equilíbrio, de "fair-play", se lhe quiserem chamar. Sempre houve ricos e pobres - o que sem dúvida já garantiu algumas surpresas deliciosas em anos anteriores, como quando um pequenino se mostra na europa, ou um clube semi-profissional se ultrapassa na taça de Portugal. Se no futuro as lições que se podem tirar deste crise chegarem ao futebol de topo, então serão muitos os grandes a sentir isso - os grandes de Portugal incluídos. A dúvida, o grande dilema deste Sporting, foi termos chegado ao nosso limite. E a escolha é complicada. Correr o risco de esticar as contas coloca o clube numa situação economicamente muito frágil. Mas não comprar decentemente, não investir a sério, tem o outro retorno: futebol que piora de ano para ano, equipa cada vez menos competitiva. Insucesso. No meio deste caos, nós, adeptos, tivemos alguma participação (vou evitar abordar aqui os "terroristas" e tudo o mais que o JEB tem dito nos últimos tempos). Admitimos a falta de exigência; deixámos, nós próprios, de exigir mais. À procura da saúde nas contas fomos sacrificando a equipa. Até ao limite do sustentável. De repente, sai o treinador. Seguiram-se o directo desportivo e o vice da SAD. E também de repente ficamos desamparados, à espera do que há-de vir, a querer a mudança mas sem saber propriamente que mudança. O empate com o Rio Ave já foi irrelevante neste contexto. Com mais ou menos oportunidades falhadas, a verdade é que no futebol às vezes é assim: quando não está a dar, não dá. E a bola bate no poste quando podia entrar. E empatamos quando estava tudo controlado. E sofremos sempre mais. Recordo Enola Gay, porque ele parece já ter chegado. Entre a discussão, a frustração e as soluções que não vemos chegar, parece que a bomba atómica está aí, em queda livre, prestes a rebentar. No jogo com o Rio Ave, JEB já parecia um homem esgotado, abatido. Para alguém que chegou há tão pouco ao topo da hierarquia leonina, parece prematuro se já atingiu o seu limite. E são mais razões para nos preocuparmos. Felizmente há selecção (que convocatória de merda, ó Queiroz!) para acalmar um pouco os ânimos. Temos de aproveitar este pouco tempo para recuperar. Mas nada invalida o que aí vem. E o derby com o benfica, em Alvalade, será dos mais relevantes dos últimos anos. Não tanto pelo campeonato (que, com 1/3 jogado já nos parece uma miragem), não pelo benfica (que não quer perder, é claro, mas que tem margem de manobra para recuperar duma derrota), mas porque vão estar em campo muito mais do que três pontos. Um empate será paliativo. A derrota será uma humilhação (independentemente do resultado, de ser justo ou renhido). Mais do que nunca só nos vai interessar a vitória. Porque se perdermos, temo bem que seja o momento da bomba. E se ela rebentar não sei se o mercado de inverno será suficiente. E mais do que salvar esta época, já teremos de pensar se seremos equem queremos (e devemos) ser na próxima.

11 comentários:

Pedro disse...

Concordo com o teu texto. De facto o Sporting está numa encruzilhada do... catano! Estamos em cima da corda. Se tombarmos para o lado certo, pode ser que a médio prazo consigamos a voltar a ser competitivos, tanto a nível desportivo como a nível financeiro.
No entanto há sempre o risco de cair para o lado errado e ficarmos assim tipo Os Belenenses...

A situação não se afigura nada simpática. Uma equipa cheia de lacunas (para não lhes chamar cepos) e sem capacidade para investir em melhores jogadores. Resta a ténue esperança que o próximo treinador seja capaz de explorar as capacidades de cada atleta e com isso fazer uma equipa que não envergonhe muito mais o pessoal.

Faz também falta que o presidente do Sporting se reequilibre porque as decisões a tomar não se compadecem com as faltas de serenidade que ele tem demonstrado (as conferências de imprensa com o Paulo Bento e o Pedro Barbosa foram surreais...)

Cláudio Kralj disse...

ou seja, o sporting está na merda, não é assim?

Pedro disse...

diria... no lodo!

Nalitzis Krpan disse...

Surreal é mesmo a palavra, Pedro. Nem fiquei chateado, fiquei mesmo de queixo caído. Tens apostas para o próximo treinador? Já ouvi falar em Cajuda, "arrepanhou-se-me tudo pela espinha acima", tal o medo.

Mas recuso-me a ser a treta do belenenses, essa coisa amena que nem é peixe nem é carne, que ninguém detesta mas que também ninguém liga, excepto a tal meia dúzia de velhotes saudosistas que vai ao estádio.

Cláudio,

Estamos bem, obrigado, seu tripeiro d'uma gana. E esse mariano gonzalez? e esse maritimo? e esse belenenses? Também andam bem? (Bah, se o Sporting não estivesse tão na merda estaríamos nesta altura a falar diariamente na crise de resultados do porto. até nisso a nossa crise vos dá jeito, porra)

Pedro disse...

Ui, nessa questão da escolha do novo treinador quem está no lodo sou eu.

De facto, o Cajuda assusta um pouco. Mas ele está a fazer quase tudo para treinar o Sporting. Só lhe falta fazer um fellatio ao JEB (ia para escrever broche mas tive receio que julgassem que me referia a algum alfinete de peito...).

Mais a sério. Dos nomes falados, aquele que me desperta alguma curiosidade é o treinador da Académica. Isto porque a escola dele é a que todos sabemos e a verdade é que ele em pouco tempo conseguiu passar a mensagem aos jogadores de Coimbra. Tacticamente há ali muito trabalho.

Se isso chega para ele vingar no Sporting? Não faço a mínima ideia, até porque treinar a Académica e o Sporting (totalmente em brasa) não é a mesma coisa. (agora parecia o anúncio da Zon... dass)

Felizmente (para o Sporting) não sou eu que decido!

manucho disse...

quanto ao sporting, temos de facto uma decisão crítica a fazer quanto ao investimento no futebol; simplesmente, considero que estamos exactamente no mesmo ponto que o benfas, i.e., sem retorno. confesso que anos de contenção e auto-somiseração do nosso clube me tornaram num tipo ávido, ansioso e populista-sem-o-garrafão: assim, o meu primeiro impulso é dizer: gastem foda-se! (e conseguiria encontrar 2 ou 3 argumentos razoáveis para me justificar, esquecendo-me que, no fundo o repto se deve à minha presente insanidade (temporária?))

quanto a treinadores, e continuando na dimensão surreal, já ouvi 'nelo vingada é hipótese', o que me faz parecer que o fellatio do cajuda ao jeb uma coisa linda. só ouço treinadores de merda e acho que daqui a nada até o professor neca se mete em bicos dos pés. mantenho o que disse, co adriaanse seria uma boa opção, simplesmente, e dado o modelo pretendido pelos nossos dirigentes, parece já descartado.
andré villas boas parece-me um pouco cedo demais: apesar de lhe reconhecer potencial e currículo, dois jogos é muito pouca coisa: quero ver efeitos a médio prazo; mas é andar de olho nele sim senhor.
e domingos paciência não?

quanto ao clube os beleneneses, um pouco mais específicamente quanto aos seus adeptos, diria que toda a gente sabe que eles são, na sua maioria, benfiquistas encapotados e portanto de espécie ainda mais reles.

abraços

Nalitzis Krpan disse...

O Domingos já deve estar prometido ao porto. o manuel machado já melhorou o seu manuel machadês. não é má opção mas está no nacional e a bestinha que manda no nacional odeia-nos. gosto do villas-boas, mas acaba de chegar a académica. deve ser difícil.o perfil de que falam é experiente e tuga. pessoalmente queria-o estrangeiro. a experiência não acho assim tão relevante.

Deve ser anunciado amanhã. Quer dizer que hoje temos razões para dormir mal...

E sim, mesmo que não seja para gastar todo, pelo menos algum investimento de gente grande vamos ter de fazer.

belenenses = "benfiquistas encapotados". eh eh

Pedro disse...

Desconhecia essa triste faceta dos belenenses! Não fiquei desiludido, até porque nunca lhes presto muita atenção... só me recordo daquele jogo em que o agora lampião Carlos Martins entra no jogo e 4 ou 5 minutos depois já está no balneário a ver os colegas pela TV. Acho que foi a partir daí que o Paulo Bento começou a olhar de lado para o gajo.

Enfim, voltando ao assunto do tópico. Mais assustador que o Cajuda é o Pacheco! Esse gajo metia-os a dar pau mas futebol que é bonito, nada!

Há para aí um blog que fala num turco com o cabelo lambido, o Fatih Terim. Mas neste caso, creio que teríamos de vender dois ou três jogadores para lhe poder pagar os salários... dois ou três dos melhorzitos que temos!!

manucho disse...

"Nesse sentido, são vários os nomes ventilados em Alvalade para render Bento, com Manuel Cajuda, Manuel Machado, Nelo Vingada ou José Couceiro a reunirem as condições traçadas por Bettencourt."

FODA-SE!!

Daqui:

http://www.record.pt/noticia.aspx?id=04b3b491-fa60-4f3b-8b20-9678a8a5c1b1&idCanal=00000024-0000-0000-0000-000000000024

Kitnoce disse...

ui ui... so grandes nomes para o SCP...o melhor seria o Villas Boas ou o Manuel José (estou a falar a sério...)... Estrangeiro ? Ok, se for para apostar para a proxima época jà, formar jovens e preparar tudo para o ano (sem perder o acesso à Europa, no minimo...).

Cláudio Kralj disse...

o couceiro se for po sporting é enrabado pelo caicedo.

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