terça-feira, 27 de outubro de 2009

"Eu não acredito em bruxas, mas que as há..."

“Estou arrependido de ter ficado calado” (in Record 28 Fevereiro de 2007)

A frase é de Lopes da Silva, na altura treinador do Bragança. Na época 1994/95 foi afastado dos relvados por 6 meses, depois de ter sido apanhado num controlo. Estava dopado.

Mas já lá vamos.

António Veloso, Carlos Mozer, Hernâni, Calado. Nomes referidos ao longo dos anos mas que não redundaram em nada de especial. Alguém nota um padrão?

Continuemos, focados numa época em particular: Paulo Barata, jogador de râguebi, e António Tavares, capitão da equipa de basquetebol. São figuras acessórias neste contexto. Mas reflectem um certo espírito. Uma última curiosidade: foram ambos descobertos no ano de Nuno Assis. O que é que se descobriu? Doping. Onde? No Benfica. Ele há coisas…

Há uns anos atrás contaram-me uma história. Daquelas que ouvimos e confiamos na palavra de quem nos diz, alguém com conhecimento de causa mas que não tem interesses no assunto. Por isso confia-se – curiosamente até era benfiquista. A história era sobre um brasileiro, com nome de estrela brasileira, que o Benfica tinha comprado: Ronaldo. Esteve cá por uma época, se bem me lembro. Era central e caceteiro. E quando chegou vinha lesionado, o que suscitou algumas piadas. Que vinha com desconto seria a mais comum.

Falo deste Ronaldo pelo que me contaram: tinha sido apanhado dopado no Benfica. O caso chegou às devidas instâncias, mas estranhamente o jogador foi vendido à pressa, despachado para a Turquia. A história morria aí, pensei eu – sejamos honestos, não tinha provas para nada daquilo. Além disso, lá longe seria mais fácil esquecer o sucedido. Assim foi.

Pensava eu. Felizmente, alguém tinha uma ideia contrária e podia dizer mais do que eu. Em Portugal, além de Quim, ainda guarda-redes do Benfica, e Gláuber (ex-Boavista), foram outros quatro casos – o tal Ronaldo (Benfica), Paulo Pereira (Ovarense), Laelson e Marco Almeida (Campomaiorense) – que levaram a uma guerra entre o Instituto do Desporto e a Federação Portuguesa de Futebol. A razão? Todos estes jogadores foram ilibados com facilidade, sem termos oportunidade de conhecer grandes contornos dos processos. Sublinha-se o “ilibados”.

Relembro que ainda falamos de doping. Façamos contas: a FPF entrou em guerra com os técnicos responsáveis (jurídica e cientificamente) pelo controlo do doping no nosso futebol. Aprendi com o tempo a desconfiar dos interesses. Vemos isso na política desde sempre. O nosso futebol prima pelo mesmo. E entre uma poderosa federação, que tem interesses a vários níveis em manter a boa imagem, e um instituto cuja única obrigação é ser competente – e ser competente pode ir contra todos os interesses –, tenho cá para mim que se deve defender os que trabalham porque se trata de trabalho (ao invés dos que trabalham porque há interesses).

Como a honestidade intelectual assim o exige, somos claros: falamos de doping e falamos de futebol. Mas falamos do Benfica em particular porque ao longo dos anos sempre se ouviu demasiadas… “coisas”.

Voltemos aos “ilibados” de há pouco. Estes tiveram a sorte que faltou a Nuno Assis – campeão pelo Benfica com o velhote a treinar, há 5 anos. Assis foi descoberto. Teve azar. Podemos assumir que o jogador se dopou de livre e espontânea vontade. Mas também podemos assumir que o Benfica havia de querer ver o problema esclarecido. O atleta foi defendido (nada contra, o que não impede que se especule o por quê de tanta defesa já depois da contra-análise), mas entre a pena e o simples facto de ser apanhado, caiu em esquecimento na luz. A vida, para ele, continuou noutro lado. A tradição medicinal para aqueles lados é que não sabemos qual é. O processo pelo menos teve a sorte de demorar mais de dois anos a ser esclarecido. Tempo mais do que suficiente. Há muito que lentidão da justiça desportiva beneficia quem prevaricou.

Ao longo dos anos no futebol português sempre se ouviram histórias. Desde jogadores a título individual, até clubes (um tal de Semedo, do porto, era muito amigo de um certo médico, do Porto). Falou-se dos 10 a 12 cafés que a dada altura se deviam tomar diariamente em certos clubes, tais eram os níveis de cafeína – um óptimo estimulante, sou o primeiro a confirmá-lo.

No ciclismo, o fenómeno do doping atingiu proporções incalculáveis, capazes de assassinar o próprio desporto. No futebol português, o caso é diferente. São os tais brandos costumes, gostamos de histórias mas não gostamos que cheguem aos locais devidos. (Seria mito? Seria lenda? Ou seriam mesmo casos abafados?)

Em 2006, surgiram ainda 27 controlos com níveis de nandrolona perto do limite máximo. Pode não ser ético mas ainda é dentro das regras. Estes casos indiciavam que alguns clubes poderiam estar a dopar jogadores com doses baixas de esteróides, para escapar nos testes. Estoutro processo chegou a ser entregue ao Ministério Público. Na altura, nada se soube do resultado do inquérito. Mas estas coisas já não se estranham. Deve ser, lá está, dos nossos costumes.

Continuemos.

Há pouco tempo atrás surgiram umas insinuações, a partir da própria direcção benfiquista. A insinuação era tão descarada que metia nojo. Assim como quem não quer a coisa, lá se dizia que poderia-de-alguma-possível-maneira-não-vá-o-diabo-tecê-las-bem-haver-como-dizer-isto-não-é-fácil-de-dizer-mas-pronto-há doping no Sporting. Num clube com um historial tão próximo do doping, tem sempre piada ver estas distorções da realidade. Faz lembrar aquela história do ladrão que grita para o ar “agarra, que é ladrão”. Ficamos a saber que há um ladrão, é certo. Mas diz o bom senso (sempre tão falível) que se foi aquele homem a dizer que havia ladrão, então o ladrão não pode ser ele. As contas são semelhantes. Se é o Benfica quem fala disso, então, coitados, o clube está (tem de estar) inocente.

Será?

Voltemos ao início. “Estou arrependido de ter ficado calado”, disse Lopes da Silva não muito antes de um reencontro.

Lopes da Silva jogava no Felgueiras, orientado por Jorge Jesus, na distante época de 1994/95. Ao recordar o episódio da suspensão, desabafou – “Prejudiquei a minha carreira por ter acreditado em Jorge Jesus e nos outros responsáveis do Felgueiras. Arranjaram-me um advogado, mas ele queria defender o clube e não a mim”. E continuou: “No intervalo de um jogo com o P. Ferreira deram-nos algo para tomar como sendo vitaminas. Os atletas confiaram! O Jorge Jesus tinha conhecimento do que aquilo era. Fui ao controlo e acusei positivo”. Ponto.

Vem tudo isto a propósito de uma frase de Manuel Machado proferida ontem. “Um cretino é um cretino”. Não se discute aqui (o próprio não discutiu) a vitória do Benfica. Uma vitória clara independentemente do que se terá passado no túnel. Mas neste ponto estou com o Machado. Um cretino será sempre um cretino. E podemos extrapolar esta afirmação para muita coisa da nossa vida social.

No futebol, exaltam-se os ânimos. Faz parte de um desporto que desperta paixões. Mas no futebol português ficamos demasiadas vezes pela suspeita. Como a história recente dos maus-tratos no Colégio Militar, ao que parece, toda a gente sabia. É assim no nosso campeonato. Ouvimos demasiado. E à nossa volta há demasiada desconfiança. Abre-se ligeiramente a porta mas não há ninguém capaz de a escancarar. A dúvida não morre, mas nunca sai do seu campo. Queremos saber o que se passou, se foi verdade ou não, mas ficamo-nos por isto. Os processos parecem inquinados. As histórias nunca chegam ao fim. A culpa, essa, já sabemos: morre solteira. Sempre.

9 comentários:

MCo. disse...

Apoiado.
Portugal no seu melhor...

b disse...

Acho piada que depois de ter jogado um jogador, o melhor marcador do campeonato, que dizia que consumia droga, isto no ano em que foram campeões, nunca ter sido apanhado numa análise, tente lançar a dúvida para pôr em causa um bom começo de época e esquecer a merda que anda em casa. Já agora que pergunte ao fernando mendes onde é que ele andou a tomar "vitaminas".

Nalitzis Krpan disse...

MCo., é triste mas é verdade.

b,

Esse comentário começa mal e acaba de forma bizarra.

Vamos por partes. Todo o texto fala de situações que ocorreram, ou que, não tendo ocorrido, foram comentadas e debatidas na imprensa na sua altura. O facto (realço o facto) de o Benfica ter mais histórias do que os outros, quer dizer mesmo isso: que tem mais (muitas mais) histórias. Não entenderes isso é a sectariedade obtusa que caracteriza demasiados adeptos. Tu incluído, ao que parece.

O tal melhor marcador de que falas, presumo que seja o jardel. Diz a história que o brasileiro foi essencial num campeonato, e essencial a foder o seguinte. Nunca foi apanhado com doping. Mas não é de agora sabermos que há atletas que consomem drogas durante a carreira. Vamos por outro lado, Agassi confessou recentemente que tomou metanfetaminas no ano em que a carreira lhe correu pior. Jardel diz que a carreira piorou por causa das drogas. No azerbeijão (ou noutro ão qualquer da antiga união soviética) foram apanhados dois jogadores que consumiram cannabis e que lançaram um novo debate. Todos estes casos para quê? Para te colocar uma simples questão. Sendo consumo de drogas, que é, não há na tua cabeça uma distinção entre quem se dopou para ter melhores resultados e quem lixou a carreira por causa de drogas? É sobre a verdade desportiva que falo. E não se entende, caso tenhas lido o texto todo (que é grande, sem dúvida, o que não é necessariamente bom) que o preocupante é a dimensão de justiça da coisa. quando extravasa um clube (o benfica é o que tem mais histórias mas referi outros casos) e se torna uma questão de incumprimento e de impunidade.

O benfica anda a ganhar à fartazana. Claro que não considero ninguém estúpido e não deixo de lançar suspeitas, indirectametne, ao recordar muitas histórias antigas (é daí que vai o passado muito falado do jesus). Mas as vitórias do benfica têm pouco nada a ver com o Sporting. O problema do Sporting é não ganhar dois jogos seguidos. E depois há muito que se pode discutir sobre esse facto.

Se não entendes as diferenças, não entendes o texto. Se para ti é tudo muito bonito apenas porque sim, que não se deve falar de "coisas" quando o teu clube joga bem, bom para ti. Quer dizer que és benfiquista. Daí a gostares verdadeiramente de futebol é que já vai um grande salto.

A história do fernando mendes não sei grande coisa sobre isso. mas terei todo o gosto em saber mais.

Pedro disse...

O jogador que jogou (para continuar na linha de pensamento do "b") é o Jardel e segundo o próprio, era cocaína. Não creio que o Sporting o fosse dopar com alguma substância e muito menos com cocaína e das duas, uma: não foi controlado nessa altura ou quando o foi não tinha vestígios de tal substância.

E atenção com essa história do Fernando Mendes. É que ele jogou nos 5 clubes que até hoje ganharam campeonatos. Veja lá, não se vá descobrir que foi no seu...

Pedro disse...

Já agora deixo o link para a notícia do jornal Público com a entrevista ao Fernando Mendes:

http://desporto.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1389032

Nalitzis Krpan disse...

Obrigado, Pedro, vou ler.

Nalitzis Krpan disse...

Já me lembro destra história do Mendes. Na altura pareceu um bocado também golpe publicitário (que também é, independentemente de ser verdade). Lá está, isto vai ao encontro do meu último parágrafo. Há demasiadas histórias que nunca chegam a ter um fim (e o futebol não é o único neste aspecto, antes fosse). No final é sempre o campeonato que perde. Já temos muitas desconfianças antes de cada jogo. E o ridículo é que temos (nós, adeptos) razões para desconfiar.

Bossio Rojas disse...

"Não entenderes isso é a sectariedade obtusa que caracteriza demasiados adeptos."

Esta frase é bem capaz de ser a coisa mais hilariante e irónica que já escreveste aqui no Apita-me.

E nem vale a pena dizer mais nada porque para meio entendedor...

Nalitzis Krpan disse...

Eh eh. Gracias, Bossio. O teu benfiquismo é incorrigível, mas não deixas de ter grandes virtudes.

Site Meter