terça-feira, 28 de setembro de 2010

Reunião de Sportinguistas Anónimos, sessão I

Bom dia, o meu nome é Nalitzis e sou um Sportinguista consciente desde que aprendi as primeiras letras.

[Olá, Nalitzis]

Quando era mais jovem, ainda antes de perceber que as miúdas eram fascinantes porque tinham mamas, ser do Sporting era claramente uma escolha pela diferença. Pelos lados de Lisboa e seus subúrbios, havia poucos portistas e só por anedota é que algum garoto diria que era de outro que não dos grandes. Havia o benfica, com muitos papás a imporem a ideologia do regime aos respectivos fedelhos, e havia o Sporting, luz de sol do pensamento livre, da excelência e da diferença. Éramos orgulhosos, irredutíveis. Ah mas vocês não ganham campeonatos (sim, mas é o Artur Jorge que vos treina), diziam os benfiquistas. E nós irredutíveis. Ah mas nós é que compramos grandes jogadores (Vale e Azevedo é presidente, Michael Thomas assume o meio campo dos encarnados). E nós irredutíveis. Campeonatos vieram e um dia quebrámos o jejum. Era inevitável. E Portugal descobriu que havia muito Sportinguista envergonhado. Veio o Boavista, pequeno clube virado patrão da corrupção nacional. O sistema está consagrado mas o porto não consegue desfrutar dele como noutros tempos. Voltamos a ser campeões e o porto não se impõe, o benfica desespera e o Boavista julga-se no topo do mundo (cairão mais tarde). E nós irredutíveis. Sabíamos perder, não nos deixávamos abater. E quando ganhávamos o gozo era total. A pouco e pouco o que antes tínhamos de bom começa a mudar. A Academia foi sagrada, saindo de lá Simão, Quaresma, Ronaldo, Hugo Viana, os nossos cofres a aumentar mas as coisas parecem mudar. Não sei quando foi mas um dia acordei e já não sabia falar do Sporting sem usar jargão que não me era natural. Passivos, Project finance, empréstimos obrigacionistas começam a fazer parte do nosso discurso para o futebol. Saltamos do Sporting – clube eclético, para o Sporting – oh-pr’a-nós-todos-modernos-mas-pobres-e-sem-filosofia-vencedora. Estamos menos irredutíveis. Aceitámos que o porto, ora corrupto, ora competente, passou a hegemónico. Aceitámos que com menos fazíamos sempre mais do que o benfica e que isso era suficiente para os patrões do nosso clube – fomos coniventes. Governa agora o Sporting do losango, sem dinheiro, a apostar na formação como se não arriscando as coisas acontecessem. Quase que ganhamos um campeonato. Fica-nos o trauma. Depois dedicamo-nos calmamente ao segundo lugar. Aceitamo-lo como nosso porque parecia já certo. Porto ganha, nós em segundo. Seguem-se os outros. E um dia já não nos sentimos irredutíveis. Apaga-se a arrogância, fica a redundância. Não saímos do mesmo e os nossos vizinhos benfiquistas dão finalmente voz ao seu fanatismo religioso. Em Braga, um tipo que nos ajudou a ser campeões está a ajudar o braga a juntar-se aos grandes. Agora são eles que têm os jogadores. Pagamos balúrdios por eles, desperdiçamo-los e ficamos a cobiçar outros. Agora somos o quarto classificado. Estamos a 28 pontos do primeiro e há muito que já não lutamos sequer pelo 3º lugar. Vem nova época e é tudo ou nada. Há merdas, há bufos, há contratações falhadas, há sub-rendimento e nós aceitamos. Um dia dizem-nos que já só somos o terceiro grande. Vamos responder, irredutíveis, mas precisamos da nossa equipa de futebol para responder. E ela cala-se. Queremos dizer aos adversários que somos melhores do que isto, mas já estamos nervosos. Antes éramos inabaláveis, agora nem nós compreendemos o que se passa. Foi-se a força, foi-se a confiança e hoje até as lesões são as novidades mais juicy do nosso dia a dia. Queremos ser irredutíveis mas a única coisa que parece irredutível em Alvalade é um espírito de aceitação, de tolerância e ineficácia, que perpassa toda a hierarquia do clube. Lembro-me de um tempo em que quando perdia, isso não nos abalava. Sabíamos que éramos melhores. Agora vivo um tempo em que, se ganhamos, pensamos apenas, ufa, safámo-nos. Lembro-me de um tempo em que ser Sportinguista era só fantástico. Agora é gesto de fé, um salto na escuridão – nunca sabemos se o próximo jogo é nova desilusão.

O meu nome é Naltizis e não queria abandonar este vício de ser Sportinguista. Pedia apenas alguma morfina, dizem que ajuda a tolerar as dores. E ser sportinguista em 2010 é coisa que dói pr’a caralho.

1 comentário:

Pedro disse...

Excelente texto. Identifico-me, infelizmente, com muito do que nele está escrito.

Já começo a ter dificuldade em falar do Sporting. Há pouco de positivo a referir mas pelo menos agora vamos ter o pessoal vestido com aprumo... isso sim é que conta!

Como as finanças estão no vermelho assim pró alaranjado - porque deve estar perto do núcleo da terra - e a equipa vale aquilo que todos sabemos... é preciso mesmo dizer? - ok, vale quase nada e para acabar com o pouco orgulho que ainda resta, viemos agora a saber (pelo menos os mais distraídos) que o estádio é uma merda. Apesar de não estar totalmente de acordo, a verdade é que há ali erros de palmatória a começar pelas cadeiras united colors (de fácil solução) e a acabar no fosso. Anos a fio, a gozar com os lampiões por causa daquele fosso ridículo e o palhaço do Taveira e quem lhe deu autorização, foram fazer um ainda maior...

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